A Guardiã das Serpentes
- Angela Ponsi
- 11 de mai.
- 2 min de leitura
Atualizado: 24 de jul.

Na floresta antiga, onde o tempo parecia dormir entre as folhas, vivia uma menina miúda como a Polegarzinha. Ela corria entre as raízes grossas e os galhos emaranhados, os olhos atentos aos perigos da mata encantada. Era pequena, sim, mas sua coragem brilhava como pedra rara em meio à escuridão verde.
Num entroncamento de árvores ancestrais, ela viu uma jibóia colossal, imóvel como uma lenda esquecida. A pele fria e úmida refletia os raios filtrados do sol, e um temor instintivo fez seu coração bater apressado. Ela não gritou. Não chorou. Correu, veloz como pensamento que se recusa a ser engolido pelo medo.
Em outra travessia, num beco que ligava sonhos a pesadelos, um mendigo surgiu. Seus olhos selvagens ardiam com o desespero dos invisíveis. De suas vestes esfarrapadas escorriam cobras negras, gosmentas, criaturas do nojo e da fobia. Elas se contorciam, prontas para se lançar sobre ela. O mendigo gritava silenciosamente dores do mundo. Ela fugiu, sim, mas seu olhar carregava algo novo: compaixão.
Mais adiante, no abrigo esquecido do tempo, ela encontrou um orfanato. As paredes tinham cheiros de abandono e ecos de soluços. Uma babá cansada balançava um bebê em seus braços ríspidos. Era uma menina fraca, de olhos miúdos e alma ferida. Quando a babá a sacudiu com impaciência, a pequena mulher interveio. Tentou amamentá-la, mas seus seios estavam secos — seu leite havia sido dado ao mundo sem retorno.
Então, com uma mamadeira antiga e cheia de doçura, alimentou a criança com paciência. A menininha sorriu. E com aquele sorriso, a pequena grande mulher compreendeu: era guardiã de vidas esquecidas, de sombras negadas, de partes suas que haviam sido expulsas do castelo da consciência.
A menina cresceu naquela jornada. Com cada serpente enfrentada, cada bebê nutrido, cada floresta atravessada, ela se transformava na mulher que viria a ser: inteira, complexa, capaz de cuidar do mundo e de si.
E quando enfim atravessou o último arco de luz entre as árvores, ela não era mais a Polegarzinha.
Era a Guardiã das Serpentes.
Angela Ponsi
A Mulher que Sonha
Há sonhos que são como visões arquetípicas — emergem da alma com a força de um mito. Em uma noite qualquer, encontrei em sonho uma mulher poderosa, selvagem e sábia: a Guardiã das Serpentes. Ela não apenas domina o símbolo primordial, mas o incorpora com coragem e firmeza. Escrevi este conto ao amanhecer, como forma de honrar essa imagem feminina ancestral, que me revelou uma chave de transformação e autoconhecimento.
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Talvez você tenha uma história que rasteja por dentro, se enrosca em lembranças, sibila segredos ou simplesmente espera — silenciosa — por um lugar para nascer.
“A Guardiã das Serpentes” nos lembra que o que carregamos pode nos curar, se for acolhido e transformado. E que toda escrita é, antes de tudo, um ato de coragem.
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