A Casa sob a Terra
- Angela Ponsi
- 12 de mai.
- 2 min de leitura
Atualizado: 9 de jun.
Era fim de tarde no quintal da mãe. O céu exalava a memória dos dias. Ali, entre folhas secas e o chão úmido, algo pulsava sob a terra. Cavando com as mãos, ela encontrou uma raiz. Mas não era raiz. Era uma criatura esquecida, de rabo escamoso e olhar de cão antigo, coberto de terra e pelos.

Ela o limpou, com piedade. Da boca da fera, saiu uma roupa — rosa, felpuda, como um abraço mal costurado da infância. Tinha o tamanho de um adulto, mas trazia vermes escondidos nas dobras. Uma voz, de algum lugar ou tempo, sussurrou: “É amaldiçoada.”
Assustada, largou o bicho. Ele fugiu, rindo como um demônio travesso. O pavor cresceu. Quis limpar-se, purificar-se, libertar-se da culpa ou do feitiço. Jogou fogo na roupa, tentou destruir o monstro — mas ele voltava, cada vez maior.
Até que surgiu ao lado dele uma mulher — olhos de fogo, vestido de desejo e sombra. Ela dançava com o monstro. Juntos, zombavam. Então a sonhadora tentou explodir o mal. Nada adiantava. Fechou os olhos, declarou: “Vocês não existem. São só pensamentos.” Mas eles riram mais alto.
Foi quando ela ouviu o segredo: “Saia. Quebre o telhado.”
Olhou para cima. O teto era de vidro. Saltou. Voou. Subiu mais alto do que a coragem permitia. O vidro estilhaçou e ela, finalmente, respirou.
Pairou sobre campos verdes, depois sobre um bosque. Chegou à praia, onde o mar parecia um rio silencioso. O céu era nublado, mas seu peito, claro.
Viajou pela orla em um carro sem nome. As ondas cresceram, tornaram-se azuis, e então — gelo e cristal. Estavam congeladas, intocáveis, como lembranças que finalmente deixam de doer.
A criatura ficou para trás, presa ao quintal da mãe. E ela seguiu, voando.
Angela Ponsi, a Mulher que Sonha





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