Escada Interrompida
- Angela Ponsi
- 20 de mai.
- 2 min de leitura
Atualizado: 9 de jun.

As ruas estavam vazias, embora ela soubesse que ali já haviam existido cafés, padarias, lugares doces. Ela os procurava como quem busca um pedaço esquecido de si. Sentia fome — mas não de comida. Fome de algo que alimentasse por dentro.
Entrou em uma confeitaria, mas os doces pareciam pálidos. O cheiro não lhe tocava a alma. Passou por outra, e mais outra. Nada. Em lugar dos bolos, apenas casas. Em lugar dos pães, silêncio. Em vez de vitrines, portas fechadas de vizinhos que não a reconheciam.
E então, um salão de beleza. Entrou por impulso — quem sabe mudar o cabelo mudasse algo por dentro. Mas saiu do mesmo jeito. Despenteada por fora, confusa por dentro. A transformação que buscava não estava na superfície.
Anoitecia. O céu descia devagar sobre as calçadas, como um cobertor úmido de incerteza. Ela pedalava com esforço por ruas familiares que já não reconhecia. Chegou até um portão alto, de ferro antigo. Estava trancado.
— Por aqui — apontaram, indicando uma escadaria íngreme, mergulhada na penumbra.
Ela olhou para a bicicleta. Não poderia levá-la. Não daquele jeito. Precisava descer sozinha.
Foi quando ouviu um som de luta. Dois cães brigavam com um homem. Ela se escondeu, aflita. Outros homens correram em socorro, levaram o ferido. E então, um dos cães se arrastou até ela. Estava ferido. Era dela. Ela o reconheceu.
Tomou-o nos braços e chorou. O cão não rosnava, não gemia. Apenas a olhava com olhos profundos — de saudade, de espera.
Foi então que o animal mudou. As feridas sumiram. Os pelos se ajeitaram. E no lugar do cão machucado, estava Tuty. Pequena, serena. Como um fragmento do passado que havia voltado para guiá-la no presente.
Ela acariciou a cabeça da cadelinha, agora viva e leve, e o portão atrás de si se abriu sozinho. Não era mais uma prisão. Era passagem.
Ela caminhou por entre árvores e sombras azuis com Tuty nos braços. Não sentia mais fome, nem medo. Não precisava de doces, nem de espelhos. Bastava-lhe aquele instante de reconexão — consigo, com o amor, com a alma que nunca a havia deixado.
E seguiu em frente.
Porque às vezes, tudo o que nos impede de voltar para casa...
é esquecer que o amor verdadeiro sempre encontra o caminho.
Angela Ponsi, a Mulher que Sonha
🌙 Sobre este conto onírico
Este conto nasceu de um sonho real vivido por Angela Ponsi – artista visual, designer, editora e escritora de travessias interiores. Cada narrativa desta série onírica é uma tradução poética do inconsciente, que se manifesta em imagens simbólicas, cenas enigmáticas e emoções profundas. Aqui, o sonho vira metáfora, a metáfora vira palavra, e a palavra se transforma em caminho.
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