A Ponte Suspensa
- Angela Ponsi
- 20 de mai.
- 2 min de leitura
Atualizado: 9 de jun.
Na cidade entre montanhas, onde os vermes dançavam em carne viva, vivia uma mulher que não saía do quarto. O mundo festejava a colheita, os cavalos desfilavam sob o céu violeta, e os convidados chegavam com presentes estranhos: vidros cheios de vermes brancos.

A mulher, porém, tinha perdido algo. No peito, um buraco onde o irmão havia se alojado — e partido. Ele aparecia às vezes, em sonhos, andando por apartamentos bagunçados, rindo como se nada tivesse sido levado.
Naquela manhã de sonho, ela ouviu um grito vindo do poço. Duas meninas caíram. O povo correu, e ela desceu com uma corda nas mãos, o corpo trêmulo e o coração num laço. Lá dentro, a escuridão tinha cheiro de infância afogada. Quando voltou à superfície, carregava não só as filhas salvas, mas a si mesma menina.
Queria descansar, mas a colheita exigia presença. Os primos a chamavam, os cavalos relinchavam, e os vermes... estavam em toda parte.
Ela havia levado consigo uma gata preta de mecha branca no pescoço e Jezebel, a pequena cadela falecida. As duas fugiram entre os pastos, livres, alegres, até que voltaram sujas, cheias de vermes. Ela não suportava olhar, não suportava tocar. Gritou por socorro, mas ninguém escutou.
Ao longe, entre dois picos, erguia-se uma piscina suspensa. Uma ponte ligava um ponto ao outro. A água brilhava, e os convidados mergulhavam nela como se renascessem.
Uma mulher de olhos fundos, uma viajante do tempo, a olhou e disse:
— Eles não são vermes, são sementes. Mas precisam da carne velha para nascer.
Então a mulher saiu do quarto, sujou os pés, abraçou Jezebel, e atravessou a ponte.
Angela Ponsi, a Mulher que Sonha
Três sonhos sonhados em sequência, e a voz do meu inconsciente dizendo: É preciso atravessar a ponte — mesmo que isso signifique encarar os vermes.
🌙 Sobre este conto onírico
Este conto nasceu de um sonho real vivido por Angela Ponsi – artista visual, designer, editora e escritora de travessias interiores. Cada narrativa desta série onírica é uma tradução poética do inconsciente, que se manifesta em imagens simbólicas, cenas enigmáticas e emoções profundas. Aqui, o sonho vira metáfora, a metáfora vira palavra, e a palavra se transforma em caminho.
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