A Montanha, o Mar e a Cabana
- Angela Ponsi
- 11 de mai.
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de jun.

Havia uma mulher de cabelos prateados pelo sol e pés que conheciam os contornos da terra. Seu nome era Amora, e ela caminhava sozinha por Torres, um lugar onde as montanhas tocavam o mar e o vento sussurrava segredos antigos. Ali, ela não era filha, mãe ou esposa — era simplesmente alma viva, livre e selvagem como as dunas que dançavam ao seu redor.
Naquela manhã de sonho, seus passos se tornaram correria. Ela corria veloz, mais rápida que o vento, saltando de pedra em pedra como uma loba alada. Subia falésias com a leveza de quem esqueceu o medo, escorregava pelas encostas com o riso solto. Era força em movimento, corpo em êxtase. E os homens que a observavam não podiam senão admirar: ali ia uma mulher inteira, dona de si.
No ponto mais alto da montanha, encontrou um galho que se estendia ao vazio. Segurou-se. O galho rangeu, rachou, quase a lançou ao abismo. Um instante de pavor, depois impulso. Subiu mais, mesmo assustada. O medo não era obstáculo — era trilha.
No cume, entre névoas e silêncio, ela viu os destroços. Fragmentos de uma embarcação naufragada jaziam ali, esquecidos, como memórias soterradas. Aproximou-se. Tocou a madeira úmida e, de súbito, um pedaço se desprendeu com ela dentro. Foi arremessada ao mar.
Afundou. O mundo era escuro, pesado, sem som. Sentiu-se presa, engolida por águas profundas onde moravam velhas dores. Mas então algo dentro dela se moveu — um grito mudo, uma força que crescia de dentro. Nadou. Lutou contra o peso, contra a sombra. E quando o pulmão se enchia de desespero, ela viu a luz. Nadou em direção ao sol até que a superfície a acolheu com ar e calor.
Emergiu. Respirou fundo. Estava viva. Renovada.
Na praia, um jovem a observava. Seus olhos não buscavam seu corpo, mas sua alma. Ele tinha o olhar de quem compreende sem julgar, de quem respeita sem invadir. Ele não falou. Apenas caminhou com ela até uma cabana escondida entre as árvores — sua morada, seu abrigo.
Ao entrarem, ela viu a bagunça: roupas espalhadas, malas abertas, lembranças fora do lugar. Um espelho de seu mundo interno. Mas o jovem não se assustou. Começou a dobrar suas roupas com cuidado, como se cada peça fosse uma parte esquecida dela. Sem dizer palavra, ele organizava o caos com mãos gentis.
Ela olhou pela janela. Do lado de fora, um homem mais velho — seu companheiro — observava. Não entrava. Ela ergueu a mão, fez um gesto sutil, um convite mudo: olhe, aprenda, veja como me cuidar. O gesto não era um adeus, mas um pedido de presença.
Então ela sorriu. Sabia, enfim, que dentro dela vivia uma força que podia cair e renascer. Sabia que o amor começa no gesto de quem se acolhe. Sabia que suas águas já não afogavam — agora, carregavam.
E a cabana, pela primeira vez, estava em paz.
Autora: Angela D’Ornelas Ponsi
Selo Editorial: Editora Conto
*Um conto simbólico baseado em um sonho de Angela.
✍️ Sonhos podem virar histórias. Histórias podem virar livros.
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