Entre o Medo e o Retorno
- Angela Ponsi
- 25 de mai.
- 2 min de leitura
Atualizado: 9 de jun.

Caminhei com passos firmes e vestido leve sob o céu da cidade, certa de que a noite me acolheria como uma velha amiga. Deixei o carro no subsolo de um supermercado adormecido — um templo moderno de silêncios e câmeras de segurança — e parti em direção à festa. As luzes, as vozes, os brilhos... nada disso me pertencia. Havia um espelho invisível entre mim e o ambiente: via, mas não era vista; estava ali, mas não era chamada.
Voltei.
O caminho de volta era uma travessia de sombras e suspeitas. A rua, antes conhecida, se tornara outra. Cada passo do salto ecoava no asfalto vazio. Homens dormiam nas calçadas como estátuas quebradas pela vida. Um medo ancestral se instalou entre os fios de cabelo: segurava minha bolsa como quem segura a alma. Eu não queria ser roubada, nem de um celular, nem de mim.
Cheguei ao carro. A fechadura pareceu respirar alívio. Entrei, fechei as portas, respirei fundo. A estrada escura era agora minha única companhia, mas era eu quem segurava o volante. E talvez, essa tenha sido a maior vitória da noite: voltar por mim.
Angela Ponsi, a Mulher que Sonha
📌 Reflexão:
Voltar sozinha no escuro nunca é apenas voltar. É carregar consigo a presença de todas as mulheres que já sentiram medo ao andar tarde pelas ruas, mesmo quando não havia ameaça clara. É segurar a bolsa como se fosse o coração, o passado, o presente e o futuro. É lembrar que o corpo é terreno, mas o medo é coletivo.
Esse sonho, embora curto, grita. Grita a exaustão das jornadas femininas noturnas, reais ou simbólicas. Grita o peso da autocobrança, da expectativa sobre como nos comportar, nos vestir, nos colocar no mundo. Grita também a lucidez de saber que nem todo lugar é abrigo. E que é preciso sabedoria para reconhecer onde pertencemos — e onde não.
Voltar não é fraqueza. Às vezes, é só mais um tipo de coragem.
🌙 Sobre este conto onírico
Este conto nasceu de um sonho real vivido por Angela Ponsi – artista visual, designer, editora e escritora de travessias interiores. Cada narrativa desta série onírica é uma tradução poética do inconsciente, que se manifesta em imagens simbólicas, cenas enigmáticas e emoções profundas. Aqui, o sonho vira metáfora, a metáfora vira palavra, e a palavra se transforma em caminho.
🌀 Se você também sonha em transformar vivências em histórias, emoções em narrativas ou memórias em livros, a Editora Conto pode te ajudar. Publicamos obras autorais com sensibilidade, cuidado gráfico e autonomia criativa para escritores iniciantes e experientes.





Comentários