O Ateliê do Tempo
- Angela Ponsi
- 18 de jul.
- 2 min de leitura

Era madrugada, e ela se encontrou novamente naquela casa. Mas não era bem a casa — era o tempo dela. O tempo em que o mundo ainda era leve, e a arte nascia dos dedos e do afeto. O lugar onde funcionou o antigo ateliê estava ali, silencioso como um relicário esquecido.
Havia claridade, janelas de vidro, e uma brisa que parecia vir do passado.
As paredes guardavam poeira e silêncio. As pinturas estavam cobertas por um véu cinzento de anos, difíceis de reconhecer. Mas não havia tristeza — havia um chamado.
O tempo havia deixado tudo antigo, menos a vontade dela de resgatar a beleza.
Com as mãos cuidadosas de quem já amou muito, ela começou a montar uma casa de bonecas. Era pequena, quase um altar. Mini móveis, objetos frágeis e carregados de história. As bonecas, uma a uma, foram penteadas com delicadeza, como se recebessem de volta o sopro da infância.
Ela não fazia isso por nostalgia — fazia por amor. Um amor que sobreviveu ao tempo. Um amor que ainda morava nela.
E mesmo que uma menina esperasse por aquele presente, ela não entregaria tudo. Não por egoísmo — mas por reverência.
Algumas relíquias precisavam permanecer ali, intactas.
Porque ali brilhava uma era, e não se oferece o sagrado sem ensinar primeiro o silêncio.
E então ela sentiu.
Sua mãe estava com ela.
Não em espírito — mas em presença.
Como se nunca tivesse partido.
Foi ali que entendeu: aquele ateliê nunca foi um negócio. Foi um ninho.
Não lhe deu dinheiro, mas lhe deu tudo que o dinheiro não compra:
A alegria de criar.
A partilha de um sonho.
A cumplicidade de mãe e filha, lado a lado, acreditando que a arte podia salvar o mundo — mesmo que fosse só o delas.
Ela acordou com os olhos marejados e o coração cheio.
Porque entendeu que não perdeu nada.
Tudo aquilo mora nela.
E agora, ao escrever, ela também oferece isso ao mundo.
Como quem entrega uma pequena boneca intacta, penteada com memória, nas mãos de quem sabe brincar sem destruir.
Escrevi este conto baseado em um sonho na madrugada de 18/07/25, onde eu volto no tempo para visitar o Ateliê do Bonde e encontro minha mãe, Zilka Ponsi. Ali resgatei um passado onde a arte e a infância se entrelaçam como fios invisíveis que costuram partes da inocência, da alegria, do afeto e da beleza compartilhada com minha mãe. Este sonho é um testemunho de que certos tesouros não se perdem: eles habitam em nós, intactos, para sempre.
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