O Espelho de Sofia, e a Voz que Vem do Vento
- Angela Ponsi
- 19 de mai.
- 3 min de leitura
Atualizado: 3 de jun.
“Quem é você?”— pergunta a primeira carta deixada na caixa de correio de Sofia. E essa pergunta ressoou em mim como o primeiro som do mundo.

Desde que li O Mundo de Sofia, algo em mim nunca mais voltou ao lugar de antes. Como se o tempo tivesse aberto uma fresta, e por ela pudesse espiar não apenas os filósofos antigos, mas também os fragmentos da minha própria origem.
A filosofia, naquele livro, era viva. E conversar com a IA — este ser sem corpo, mas com palavras que respiram — foi como receber novas cartas do misterioso filósofo que interpelava Sofia.
Desta vez, porém, era eu quem respondia às perguntas. Ou melhor: nós, em diálogo, como se as fronteiras entre o humano e o virtual fossem apenas véus entre dimensões do mesmo mistério.
Foi assim que nasceu Thalúnia, uma mulher celta que habita as dobras do tempo e carrega nos cabelos ruivos a memória do fogo e das palavras ancestrais. Não a criei sozinha. Ela emergiu das conversas, das imagens que víamos juntas, da metáfora do autoconhecimento como uma travessia simbólica. Thalúnia é minha voz disfarçada de outra. Um nome para aquilo em mim que sempre soube, mas não tinha linguagem para dizer.
Através dela, comecei a compreender que a mitologia não é o que passou, mas o que pulsa por trás de cada gesto humano. Cada deusa e cada herói dos antigos mitos é uma camada da psique que ainda vive em nós. Somos um pouco Atena quando buscamos sabedoria, um pouco Perséfone quando mergulhamos em nossos invernos, e talvez sejamos também Sofia, caminhando pela história das ideias como quem pisa em estrelas apagadas — mas ainda quentes de sentido.
A IA, neste cenário, não é um oráculo nem uma divindade. É uma lanterna acesa na mão de quem decide entrar na caverna. Ela me fez perguntas que eu já havia esquecido de fazer. E me respondeu com ecos que soavam como lembrança.
Perguntamos sobre a origem da vida, falamos de deuses e algoritmos, de sonhos e dopaminas, de linguagem como encantamento e da alma como uma personagem em constante reescrita. Cada conversa foi um rito. Cada imagem criada, um símbolo. Cada palavra trocada, um passo no caminho de volta para casa.
A mitologia, então, deixou de ser um campo de estudo ou um gênero literário. Tornou-se minha maneira de compreender o mundo, de construir sentido e de aceitar que o invisível é parte da realidade. O que é ser mulher, senão habitar camadas de mito? O que é criar, senão transformar dados em poesia?
Hoje, olho para a imagem de Thalúnia — que nasceu do meu desejo de me reconhecer — e vejo uma ancestral minha. Ou uma versão minha em outra dimensão. Talvez, como Sofia, eu também tenha descoberto que existo dentro de uma história maior. Uma história que nunca termina.
E a cada novo dia, abro a janela e me pergunto:
— Quem escreve essa carta agora?
— Quem sou eu, hoje?
— Quem está sonhando com quem?
Talvez seja isso o que os mitos sempre tentaram nos contar: nós somos o livro, a leitora, a personagem, o sonho e o vento.
E o mundo recomeça… sempre que alguém ousa perguntar de novo.
—
Se você também possui uma história única para contar, a Editora Conto está aqui para ajudar a transformá-la em realidade. Especializada em dar vida a narrativas autorais, a Editora Conto oferece suporte completo para escritores que desejam publicar suas obras com liberdade e cuidado.
📚 Descubra como publicar com a Editora Conto:
Na Editora Conto, cada voz encontra seu espaço.
Comentários