O Quartinho dos Fundos
- Angela Ponsi
- 9 de jun.
- 2 min de leitura

Na casa antiga, de janelas pequenas e memórias grandes, havia um quartinho nos fundos que nunca via a luz do sol. Ali repousavam os restos de muitos tempos: brinquedos com olhos vazios, enfeites de Natal cobertos de pó, cadernos onde a infância tentou escrever o futuro. Era um depósito de tudo que um dia fez sentido, mas que ninguém mais conseguia nomear.
Ela voltava lá com frequência — não no corpo, mas no que chamavam de sonho. E sempre que voltava, carregava uma vassoura invisível, um caderno de anotações, e uma esperança infantil de que desta vez alguém a ajudaria.
As meninas estavam lá, mas não viam. Brincavam com as luzes do celular, se distraíam com fantasmas que ela não enxergava. Ela tentava explicar, mostrar, ensinar — mas a bagunça crescia mais rápido do que suas palavras podiam conter.
O quartinho era o reino dos homens ausentes. O tio, com suas garrafas vazias e versos soltos, ainda deixava o cheiro do feijão nos panos de prato esquecidos. O irmão, com sua ciência secreta, trancava a porta até nos sonhos. E o pai… o pai deixava roupas dobradas com precisão militar, como se a ordem do mundo dependesse da simetria de uma camiseta.
Mas todos já haviam partido. E mesmo assim, era ela quem ainda limpava.
Um dia, enquanto ajeitava uma pequena árvore de Natal caída atrás do armário, algo diferente aconteceu. Ao levantar a árvore, viu uma luz delicada escapando da caixa de bolas douradas. Não era a luz do presente. Era uma memória: sua mãe, ainda jovem, rindo com as mãos cobertas de cola, tentando fazer uma guirlanda de retalhos. Ao fundo, o rádio tocava um bolero antigo. A casa inteira estava viva.
Ela sentou no chão, cercada de poeira e lembranças, e chorou. Mas dessa vez, não de cansaço. Chorou por tudo o que amou e não pôde salvar. Por tudo o que salvou e não foi visto. Chorou por não ser mais aquela criança que queria agradar a todos, e por finalmente entender que a beleza da arrumação estava no gesto, não no resultado.
No dia seguinte, acordou com os olhos inchados, mas leves. Acordou com uma decisão: não mais arrumaria o que não lhe pertence. Não mais ensinaria quem não quer aprender. Em vez disso, criaria um novo quarto - em si mesma. Um lugar onde pudesse dançar com a poeira, brincar com os retalhos, inventar suas próprias tradições.
E, talvez, pendurar um novo enfeite de Natal. Só seu. Só agora.
Só porque ainda há tempo.
Angela Ponsi, a Mulher que Sonha
💭 Se você também guarda um quartinho nos fundos da alma — cheio de lembranças, silêncios e esperanças não ditas — talvez seja hora de abri-lo. A escrita é uma forma delicada de arrumar o invisível, de nomear o que parecia esquecido, de transformar memórias em gesto criativo.
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✨ Seu livro começa com uma decisão: escrever. O resto, criamos juntos.





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