O Vulcão era Eu
- Angela Ponsi
- 15 de mai.
- 2 min de leitura
Atualizado: 9 de jun.
Era manhã clara quando ela acordou com o coração pulsando em silêncio. Não era medo, tampouco alegria: era um chamado. Ainda deitada, soube que era dia de partir. E partiu.
Pegou sua bicicleta, como quem resgata uma parte esquecida da infância, e seguiu sem pressa.

A cada pedalada, deixava para trás os muros invisíveis que um dia construiu para sobreviver — muros de negação, de exaustão, de doação sem retorno. Ao lado dela, seguia seu companheiro de tantas estações, que agora era testemunha silenciosa de um reencontro maior.
A paisagem era de uma beleza que só se vê quando se olha de dentro. Vales verdes, céu aberto, árvores que dançavam com o vento — tudo parecia refletir o que ela mal ousava sentir: leveza.
No horizonte, uma montanha. Mas não era só uma montanha. Conforme se aproximava, ela percebia as marcas do tempo e do concreto sobre sua pele de pedra. Era um vulcão adormecido, um coração selado.
Ela parou.
Ficou ali, diante do gigante, e algo se abriu nela. Uma lembrança, talvez. Ou um reconhecimento. Aproximou-se com reverência, como quem toca o próprio ventre depois de muito tempo. E então sorriu. Um sorriso manso, como quem se reconcilia com o que arde e ainda assim protege. Fez uma pose, pediu uma foto.
Não era vaidade. Era memória. Era um registro do instante em que ela entendeu: aquele vulcão era ela. Não o medo de explodir, mas a potência de conter fogo sem perder o calor. Era a alquimia entre o que foi e o que virá. Entre a força que silencia e a que grita em forma de criação.
Ao lado do companheiro, ela seguiu viagem. Mas agora não pedalava para fugir nem para buscar.
Pedalava para existir. Inteira. Pela primeira vez, talvez.
E o sol, lá no alto, parecia sorrir de volta.
Angela Ponsi, a Mulher que Sonha





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