A Jóia Invisível
- Angela Ponsi
- 15 de mai.
- 1 min de leitura
Atualizado: 9 de jun.

Ela veio devagar. Como sempre vinha.
Com aquele olhar de quem conhece o tempo e seus atalhos.
Era minha tia, mas também era meu reflexo mais antigo — um espelho do sangue, da origem, da dualidade.
Ela estendeu a mão.
Não com violência.
Mas com o peso daquilo que pede sem palavras.
— “Me dá?” — perguntou, embora eu soubesse que ela não nomearia o que queria.
Dentro de mim, algo soube o que era.
Não era um objeto, nem uma lembrança.
Era algo meu.
Muito meu.
Uma parte que lutei anos para recuperar.
E eu disse não.
Não com dureza, nem com raiva.
Mas com a firmeza de quem aprendeu a dizer sim a si mesma.
Vi a decepção aflorar no rosto dela — um misto de mágoa e espanto.
E aquilo doeu.
Como se romper com os fios invisíveis da herança fosse sempre um tipo de traição.
Mas havia também… um alívio.
Porque naquele instante, entendi:
a minha cura não viria da entrega.
Viria do limite.
Do gesto de manter comigo aquilo que me reconstruiu.
Ela não disse mais nada.
Se virou, foi embora.
E eu fiquei.
Com a minha jóia invisível nas mãos.
Com o coração um pouco doído, mas inteiro.
E pela primeira vez,
sem culpa,
sem dívida,
eu soube que tinha me curado.
Angela Ponsi, a Mulher que Sonha





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