O Espelho do Rio
- Angela Ponsi
- 30 de jul.
- 2 min de leitura

Ela caminhava às margens do rio como quem procura um rosto perdido nas águas.
Sabia nadar — e até gostava da correnteza — mas seu mergulho sempre tinha um mesmo destino: encontrar olhos que a vissem.
Olhos de homens, de afetos passados, de desejos que se tornavam castelos de areia.
Eles a olhavam, sim. E por um instante ela se sentia viva.
Mas depois... o silêncio.
Depois... o vazio.
Depois... a sensação de ter sido apenas alimento para egos famintos.
Como se sua beleza, sua inteligência, sua entrega fossem moedas lançadas num poço sem fundo.
Certa noite, em sonho, ela voltou ao rio.
Mas desta vez, não buscava ninar vaidades alheias — buscava a si.
As águas estavam espelhadas.
Ela se aproximou.
Esperava ver seu rosto, mas o reflexo estava turvo, distorcido por todas as vozes que um dia disseram quem ela deveria ser.
Então, algo novo aconteceu.
O rio sussurrou:
“Você não é reflexo. É nascente.”
“Você não é o que os outros veem. É o que pulsa mesmo quando ninguém está olhando.”
Ela chorou.
As lágrimas caíram no espelho d’água e, em vez de distorcer, clarificaram.
Ali, pela primeira vez, ela se viu — não como os outros a viam, mas como era:
Forte.
Selvagem.
Doce.
Incontida.
Inteira.
Desde então, toda vez que sentia a velha vontade de ser vista, ou escolhida, ou validada...
ela voltava ao espelho do rio.
Não para ser refletida —
mas para lembrar:
Quem conhece a nascente, não teme a ausência de aplausos.
Quem é fonte, não implora sede alheia.
Quem se vê com verdade, não precisa se oferecer em sacrifício.
E nunca mais foi sombra.
Nem reflexo.
Ela era luz líquida, dançando no seu próprio fluxo.
Angela Ponsi
A Mulher que Sonha
Um conto onírico sobre a mulher que cansou de ser reflexo.
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