O Prato da Vida
- Angela Ponsi
- 24 de jul.
- 2 min de leitura

Durante muitos anos, ela sentava-se à mesma mesa, diante do mesmo prato.
A carne de frango, sempre servida do mesmo jeito — macia, branca, sem tempero.
Era a carne que ela mesma preparava, arrancada de si em pequenas porções diárias: o peito que acolhia, as asas que nunca batiam, as pernas que não caminhavam.
Ela comia em silêncio.
Ouvia vozes ao redor, mas a sua própria ficava guardada entre os dentes cerrados, entre os ossos daquilo que restava dela.
Mas um dia, ao sentar-se novamente diante do prato, sentiu no fundo do estômago um não.
Não de raiva, nem de rebeldia. Um não sagrado, que brotou como um canto: "Basta."
Levantou-se da mesa.
Saiu da casa.
Caminhou até o rio — aquele que ela mesma havia esquecido, mas que ainda corria dentro dela.
Ali, viu nadar um peixe dourado. Não o pegou com redes, não o caçou.
O peixe saltou até suas mãos.
Ela o levou consigo. Não havia culpa.
Na cozinha silenciosa, preparou o peixe com azeite, ervas, sal e calor.
Fritou-o até ficar crocante.
Quando sentou-se para comer, saboreou pela primeira vez um alimento que não vinha do próprio corpo, mas da alma.
E ao morder a pele estalante do peixe, sentiu-se inteira.
Não era mais oferenda — era celebrante.
Não era mais serva — era criadora.
Lá fora, o mundo seguia esperando.
Mas ela já havia rompido o lacre.
A chave da gaiola estava em sua garganta.
E ao engolir o último pedaço, abriu as asas, sem pressa, e voou.
Angela Ponsi
A Mulher que Sonha
💡 Você também carrega histórias que querem nascer?
Na Editora Conto, acreditamos no poder da escrita como forma de cura, expressão e realização.
Escreva com liberdade, publique com autonomia e compartilhe sua voz com o mundo.
👉 Conheça nossos planos de publicação e envie seu original: editoraconto.com.br





Comentários